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O pássaro canta, e com isto o bambu se parte 

Mestre Ryotan Tokuda Igarashi

 

            O texto que se segue é um extrato de palestra dada pelo monge Ryotan Tokuda durante suas jornadas do Dharma em Munique, Alemanha, durante novembro de 1987.

            "Para terminar, gostaria de contar um acontecimento que pertence a minha experiência pessoal. Quando eu era jovem, viajava como rádio telefonista e piloto para a força aérea japonesa numa ilha no mar do Japão. Foi naquela época que pela primeira vez encontrei-me com o budismo e em particular com o budismo zen. Antes disto eu havia sido cristão; pode parecer estranho isto para vocês, mas estes são os fatos. Na escola maternal, havia uma professora que vinha da Alemanha; vestia um hábito negro e na cabeça tinha um chapéu de monja branco. Mais tarde, na escola, eu fui protestante, indo a escola dominical e estudando a bíblia em inglês.

            Foi durante aquela época, (como soldado) que eu comecei a me familiarizar com o budismo zen, eu sofria muito então, e foi naquele momento mesmo que comecei a me sentar por minha própria vontade, sem mestre. Em qualquer parte onde isto me fosse possível, eu sentava em zazen, no dojô de karate, no dojô de kendô, algumas vezes durante a noite, em cima de uma árvore seca e adormecendo, muitas vezes eu caía. Sentei-me também dentro do rio, mas sem ainda ter prática suficiente, eu me levantei e de pé dentro da água eu chorei.

            Um dia eu desci para a cidade para tomar um banho. Perambulando pelas ruas e de repente escutei um sino de um templo budista. Como era maravilhoso aquele som! Veio-me uma vontade repentina de ver quem tocava aquele sino. Segui a origem do som, mas quando lá cheguei, ele acabou e vi o monge regressar para o templo. Achei que o poderia alcançar justamente quando ele o fosse tocar novamente. Como o toque havia sido às seis horas da tarde, eu imaginei que a próxima vez eles tocariam às dez horas da noite para anunciar o fim do dia. Então me quedei esperando. Às dez horas o monge se levantou; cri então que ele sairia e o segui com os olhos impacientemente. Naquele momento o monge apagou a luz e foi dormir. Oh!

            Eu estava positivamente decidido a ouvir aquele sino e me decidi a esperar até a manhã seguinte. Subi então alguns degraus da torre do sino e me sentei debaixo deste na postura de zazen. O tempo passava, eu sentava e meditava. Uma lua cheia magnífica brilhava e uma grande nuvem deslizava pelo céu. Mas cedo na manhã seguinte eu deveria regressar a troca de guarda. Tive então que sair antes de ter ouvido o gongo matinal. Então eu trabalhei até o próximo dia de folga.

            Uma semana mais tarde, novamente tive oportunidade de ir à cidade. Desta vez eis que eu fui diretamente ao templo. No preciso momento quando lá chegava, um velho monge que tinha os seus oitenta anos subiu na torre do sino e o tocou. Donnnngggg! Naquele momento meu corpo desapareceu, e eu pronunciei as palavras "Namu Amida Butsu" mas não fui eu mesmo que falei; ao invés, tinha a impressão que o próprio Buda falava; mas quem estava lá para escutar isto eu não sei. Não sei quanto tempo, segundos ou minutos se decorreram, mas esta experiência mudou minha vida. Com isto eu me tornei monge: eu era soldado, e me tornei monge, que é uma coisa radicalmente diferente.

            Esta experiência, Meister Eckhart chama de Hervorbrechen. Para que ela  ocorra é necessário que estejamos na vacuidade. Quanto a isto, Mestre Dogen diz em japonês: Shinji datsu raku, o que quer dizer: abandonar corpo e mente, os abandonar completamente.

            Primeiramente eu pratiquei na escola Rinzai. No inverno neva no Japão justamente como aqui. As janelas do zendô ficavam abertas, e fazia muito frio.

            O bambu tem uma grande versatilidade, mas às vezes ele quebra debaixo do peso da neve. Debaixo do peso da neve, a arvore se dobra sempre mais e se inclina mais e mais para a terra. Às vezes, quando cai uma nova nevasca, a arvore se levanta de repente, mas quando neva muito o bambu não pode mais se levantar. Se continua ainda a nevar, o bambu de repente se parte.

            Dentro do zendô todos os praticantes estavam sentados no mais absoluto silêncio.

            No Japão tem um passarinho cujo canto faz todo mundo ficar muito triste. No Shobogenzo, Mestre Dogen escreveu: "O passarinho canta e o bambu se parte". Isto não quer dizer que o passarinho cante primeiro e que o bambu se quebre em seguida a isto, mas que tudo isto ocorre simultaneamente, sem distância. O passarinho cantou, o bambu se quebrou, o universo explodiu, e eu também explodi."

Tradução de Leyla Mayer


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