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O Budismo na Minha Vida

Luiz Antonio Pavanelli Fernandes (Shaku An-E)

Meu Caminho

            Fui criado numa família de tradição católica na qual os ensinamentos básicos do Cristianismo faziam-se presentes. Como manda a tradição fui batizado, recebi a primeira comunhão e fui crismado. Tudo isso numa quase obrigação social e religiosa, visto que meus pais não eram assíduos freqüentadores da Igreja.

            Quando adolescente, comecei a questionar muitas coisas a respeito da religião, da religiosidade e o sentido de tudo aquilo. Questionava o porque haver dois pesos, duas medidas. Numa primeira análise, pela minha ótica, parecia que a maneira com que as pessoas se mostravam aos domingos na missa, ou em festas religiosas, não era necessariamente aquilo que viviam nos seus dia-a-dia. Comecei a pensar na conveniência das coisas, como elas se colocavam perante a minha inexperiente vida. Questionava como podia existir um Deus que punia as pessoas por não seguirem determinados dogmas, normas ou ensinamentos. Nesse momento, quase que sem querer, recebi apoio por parte de minha mãe quando coloquei a ela o que eu pensava da Igreja; ela disse que eu encontraria o meu caminho quando chegasse a hora. Palavras sábias, com certeza.

            Quando estava na faculdade, comecei a procurar explicações para as coisas aparentemente inexplicáveis, talvez pela formação muito técnica que eu estava tendo. Comecei a me interessar por Parapsicologia, Treinamento Autógeno, Neurolingüistica, e tudo aquilo que se propunha a dar uma explicação, dito científica, para as coisas, acontecimentos e fatos. Fiz cursos, li muito, participei de grupos, assisti palestras, etc. No início dos anos 80 começaram a surgir muitos livros ditos de auto-ajuda; era uma época de muitas buscas e poucas descobertas. Ao mundo pareciam oferecer a caixa de Pandora, mas as coisas não funcionavam com o simples bater de uma vara de condão. Nessa época estava sem um objetivo espiritual definido e com muitas dúvidas a respeito de uma existência plena.

            Aconteceu um fato por volta de 1987 que foi um momento de profunda reflexão. Estava conversando com uma pessoa e, de repente, disparei a falar. Falei muito, muito mesmo. A conversa, quase monólogo, teve começo, meio e fim. Falei por uns 10 a 15 minutos. Quando terminei, essa pessoa me indagou onde tinha lido tudo aquilo. Disse que nunca tinha lido uma palavra daquilo que havia acabado de dizer, simplesmente eu pensava e sentia tudo aquilo. Esse foi um momento marcante na minha vida.

            Um acontecimento no final de 2001 viria a marcar profundamente a minha vida espiritual. Na época ia fazer uma viagem que sabia por antecedência, não seria  grande coisa. Na estante escolhi um livro, meio ao acaso, não muito volumoso pois queria ter tempo para lê-lo na viagem. Comecei a ler numa tarde e no outro dia após o almoço já havia terminado. Esse livro era Budismo Essencial, de Gyomay Kubose. Refleti muito sobre tudo o que tinha lido. Em seus trinta e poucos pequenos capítulos estavam descritas situações que condiziam com o que eu pensava, com o que praticava, agia e sentia. Se aquilo era a vivência do Budismo, então eu era um budista e não sabia. Refleti sobre tudo aquilo e num sábado de manhã dirigi-me até o endereço indicado na contra-capa do referido livro. Fui atendido de forma um tanto quanto telegráfica recebendo um folheto informando que naquele sábado, no período da tarde, haveria uma palestra sobre Budismo Geral. Dessa maneira, até hoje freqüento o Templo Higashi Honganji.

            Nesse período que freqüento o Templo aconteceram algumas coisas marcantes. No início sentia-me meio perdido, pois haviam palestras alternadas de monges que falavam linguagens totalmente diferentes. Muitas vezes cheguei a pensar que era a materialização da Torre de Babel. Tenho que admitir que fui persistente, mas a cada dia conseguia ver as coisas de forma diferente, realmente começando a sentir o que poderia ser o Budismo na minha vida.

            No final de 2002, após certa insistência do Rev. Imai, li pela primeira vez o Tannishô. Essa leitura foi mais um acontecimento marcante em minha vida. Tive o privilégio de, num momento propício, ler o Introdutório do Prof. Ricardo Mário Gonçalves no qual são colocadas noções de psicologia e religião. Quando acabei de ler esse Introdutório, relembrei aquilo que havia falado em 1987. Tanto a conversa que tive quanto ao texto lido, eram a mesma coisa, possuindo os mesmos elementos, o mesmo pano de fundo. A única diferença foi o tipo de linguagem utilizada. A minha conversa de forma prosaica enquanto o texto Introdutório foi colocado numa forma estruturada, utilizando-se de uma linguagem coloquial baseado em conceitos e estudos realizados. Nesse momento, senti algo que se manifestava de forma concreta: havia descoberto o meu caminho que é o de trilhar o ensinamento budista.

 Ser budista no dia-a-dia

            No meu caso, o que é ser budista? É viver o Budismo durante as 24 horas do dia. É admitir a fragilidade de nossa existência, a nossa extrema dependência uns dos outros, é sentir que o momento presente é o auge de nossa vida, é escutar muito mais do que falar, é ter o sentimento da compaixão presente em pensamentos e ações.

No início sempre ouvia que o suficiente era escutar o Dharma. Naquela época não entendia como somente escutando-o, algo poderia vir acontecer. Hoje tenho a certeza que escutar o Dharma é algo que nos faz crescer espiritualmente, pois somos levados a pensar e agir de maneira diferente. Tudo flui de uma maneira espontânea, não existindo um policiamento interior para fazer o certo ou o errado; existe sim a manifestação de fazer o correto. Focar e encarar os acontecimentos e problemas de nossas vidas de frente, é algo que surge naturalmente.

Ser budista é vivenciar que todos nós somos parte de um todo maior, mas que também todos somos diferentes.

Ser budista é ter a certeza de que a vida é única e que devemos agradecer ao fato de estarmos vivos.


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